Italiano radicado no Brasil, Michele Iacocca chegou aos 68 anos de idade com cerca de 200 livros infantojuvenis. Dezenas deles têm seu texto e suas ilustrações, mas há outros que Iacocca apenas ilustrou. Premiado, já foi inspiração até para peças de teatro, como com o livro As Aventuras de Bambolina, adaptado pela companhia Pia Fraus. CRESCER entrevistou esse artista plástico e escritor, para conversar sobre seu livro Numa Terra Estranha, lançado em 2010 pela Editora Global. Falamos sobre o livro em si e também sobre as inspirações que dão vida às suas obras.
CRESCER: O livro Numa Terra Estranha mostra as percepções de um garoto em relação a várias situações que ele vivencia em uma praia, num dia comum. O que você procurou destacar nessa obra?
Michele Iacocca: Meu foco nesse livro não eram os acontecimentos em si, mas justamente a percepção da criança em relação ao ambiente, a maneira fantasiosa como ela recebe o que a cerca. No início de seu relato, por exemplo, o garoto diz ter ido viajar para uma terra estranha, cheia de seres estranhos… Enquanto ele diz isso, as ilustrações mostram sua chegada a uma praia cheia de pessoas se divertindo, jogando frescobol, tomando sorvete e brincando na areia. Pouco depois, o garoto entra no mar, toma um caldo e diz ter sido derrubado por um monstro. O livro ressalta esse olhar fantasioso e brinca com a terra estranha, que é como a criança encara um ambiente novo. Por outro lado, mostro também a facilidade que a criança tem de se entrosar, a rapidez com que começa a interagir com o ambiente e com outras crianças, que logo deixam de ser tão estranhos.
C: Numa terra estranha possui um texto enxuto e desenhos bastante expressivos, decisivos na condução do leitor pela narrativa. Isso é uma característica de suas obras? São os traços do artista plástico abreviando as palavras?
MI: Sem dúvida alguma, costumo somar informações do texto com outras reveladas nas ilustrações. Não uso a ilustração como reflexo óbvio do texto – procuro sempre torná-la complementar, permitir que o leitor vá além por meio dela. Nesse livro, quando o protagonista fala de uma terra estranha, é a ilustração que revela ao leitor que terra é aquela. A palavra “praia” não aparece escrita em nenhum momento e, no entanto, permeia toda a história. As imagens, portanto, também contam a história – elas andam em paralelo com o texto o tempo todo. Uso muito esse recurso e acredito que tem a ver com minha experiência não apenas como artista plástico, mas também como cartunista, que fui por muito tempo.
C: O senhor está com 68 anos e é incrível como seus livros conversam bem com crianças pequenas. De onde vem o repertório que mantém o senhor em tamanha conexão com o universo infantil?
MI: Não tenho dúvida de que a principal inspiração para meu trabalho é minha própria infância. Nasci e cresci na Itália, perdi minha mãe muito cedo e fui criado por uma avó que me deixava muito solto. Essa avó faleceu quando eu tinha apenas 12 anos de idade e, daí em diante, vivi mais livre ainda. Essas circunstâncias, que poderiam ter repercutido em mim de maneira negativa, na verdade foram muito enriquecedoras. Tive uma infância riquíssima no que ser refere à fantasia. Lembro que aos 5 ou 6 anos de idade eu já saía com amigos, nadava com eles no rio que passava em nossa cidade, passava horas pelas ruas. Eu vivia muitas aventuras reais e imaginárias e nunca me senti infeliz. E agora, com quase 70 anos de idade, ainda trago essas tantas coisas boas e fantasias que vivi, como principal matéria-prima para o meu trabalho.
Fonte: http://revistacrescer.globo.com/Revista/Crescer/0,,EMI222663-10460,00-MICHELE+IACOCCA+A+NARRATIVA+SOB+O+OLHAR+DA+CRIANCA.html